Alimente a esperança
10 10UTC agosto 10UTC 2008
Atendendo a um pedido, estou publicando este conto meu. Espero que a pessoa e vocês gostem! Beijos!!!!

Um senhor, cabelos grisalhos e muitas rugas no rosto, olhava o mar, absorto. O senhor não escutava nada, a não ser o barulho do mar e das suas lembranças.
Lágrimas entrecortadas por soluços, este era o barulho que se ouvia bem perto dali.
O senhor voltou de suas lembranças, olhou ao redor. Ao ver a jovem chorando copiosamente, lembrou-se de um fato ocorrido naquela mesma praia cinqüenta anos atrás.
A passos lentos, aproximou-se da jovem. Olhou-a por alguns segundos, condoído. Sentiu algo tomar-lhe o peito, sentiu nitidamente a dor de outrora.
- Posso me sentar aqui? – perguntou.
- Pode.
- Eu estava ali observando você. Por que está chorando tanto?
A jovem olhou-o, surpresa. Ele lhe era totalmente estranho. Por que queria saber a razão do seu pranto? Mas ela não tinha forças para ser arrogante com o senhor que parecia sinceramente preocupado com ela.
- Daqui a alguns minutos um amigo meu vai se mudar para outro estado. A chance de eu revê-lo algum dia é mínima.
- Mas essa chance existe… – o senhor abaixou a cabeça e levou a mão aos olhos. – E se você tivesse certeza que nunca mais vai ver o seu amigo, que a chance de um possível reencontro é nula? – disse, tentando controlar a emoção.
- Eu não sei… Acho que eu morreria de tristeza.
- Não, você seria obrigada a seguir com a sua vida. Mesmo que às vezes você não se sentisse viva.
- Como assim? – inquiriu a jovem sem entender.
- A certeza de um “nunca mais” roubaria um pouco ou muito da sua vida, sua alegria de viver. Mas a vida estaria lá dia e noite a obrigando a tocar o barco. Faculdade, festas, outros amigos, amores, nada disso poderia parar. E você teria que se acostumar com o vazio.
A jovem o olhava sem saber o que dizer.
- Há cinqüenta anos eu tive que me acostumar com esse vazio – continuou o senhor.
- O que houve com seu amigo?
- Ele morreu. Aqui mesmo nessa praia. Naquela época éramos dois garotões que só queriam saber de curtir a vida. Éramos surfistas. Sempre que podíamos vínhamos surfar. Um dia de mar cheio, ele estava na melhor onda do dia quando sentiu uma câimbra e caiu da prancha. Ele não conseguia nadar e eu não consegui carregá-lo até a areia. Ele morreu afogado.
- Sinto muito.
- Naquele momento, senti todo o peso do “nunca mais”. Dias depois de sua morte eu estava no seu lugar, chorando. Foi a primeira vez que chorei copiosamente em público. Tive que me acostumar a viver minha vida sem o pedaço que ele levou. Nunca mais surfei desde aquele dia.
Depois de alguns segundos em silêncio, o senhor disse:
- Às vezes venho aqui e me recordo dos momentos que passamos juntos. Aqui sinto ele perto de mim. Não sei como explicar.
A jovem enxugou as lágrimas que escorreram-lhe pela face. Desta vez, chorava de emoção.
- Não chore. Não pegue minha dor pra você. Lembre-se: não mate a esperança. Enquanto ela existir, alimente-a, cuide bem dela. Mesmo que a possibilidade seja mínima, nunca deixe de sonhar com o reencontro. Eu reencontrei o meu amigo.
- Hã? Encontrou?
De repente, a jovem olhou ao redor e não viu mais o senhor. Sumiu como fumaça ou… como um fantasma. Ou seria um anjo que viera deixar uma esperança em seu coração?


Comentário por Gabriela — 10 10UTC agosto 10UTC 2008 (18:26)
Simplesmente amei o conto!!! Com toda sinceridade. Sabe porquê?? Ele me faz recordar uma época da minha vida, não com relação à morte, mas com relação à mudança, e não perder a esperança é muito importante nesses momentos. Obrigada por atender ao pedido!!!!
=)